Mittwoch, 16. Februar 2011

Privacidade Parte II

Voltando ao assunto de como as pessoas lidam com sua privacidade aqui na Alemanha, recentemente ouvi essa frase: "Isso é uma invasão de minha privacidade. Não quero dizer nada sobre esse assunto." Dou três chances pra vocês tentarem descobrir quem falou isso. Não foi em um interrogatório policial. Não foi em uma discussão política e nem em um filme policial cliché. Eu ouvi esta frase de um garoto de 13 anos, na sala de aula quando perguntei "What do you do in your free time?" (O que você faz no seu tempo livre?).
 
Antes que vocês digam que este guri estava apenas de brincadeira eu garanto a vocês que ele estava apenas reproduzindo muito bem o peso e valor que as pessoas aqui nesta cultura dão à sua privacidade. Quando comecei a ensinar aqui eu ficava irritada e confusa depois de cada aula. Eu simplesmente não entendia porque a mesma estrutura de aula que fazia o maior sucesso no Brasil era um grande fracasso aqui. 
Em Salvador, era raro ter uma turma que não se empolgasse com atividades que os fizessem levantar, andar pela sala falando uns com os outros  e falando de si mesmos. Aqui, para essas atividades funcionarem, é necessário uma longa preparação. Já percebi que elas só funcionam bem depois de muitas outras para se conhecer e criar um certo clima de intimidade no grupo. Além disso, se você e a turma ainda não se conhecem muito bem, sempre ajuda se você deixar bem claro no início de uma atividade dessas, que você não está nem aí pra vida pessoal deles e que eles devem inventar respostas se quiserem.

Comecei a dar essa instrução antes de cada atividade que tivesse pergunta pessoal, de qualquer tipo por mais inocente que fosse. Comecei também a dar informações sobre mim mesma que eram obviamente inventadas, só pra estabelecer um exemplo. Tipo, em uma aula eu dizia que tinha nascido aqui, em outra que tinha nascido no Brasil e por aí vai. De repente, um ou outro começa a se interessar e de fato querer saber. Cris, falando sério agora: você nasceu onde mesmo? Quando essa pergunta surge, na qual eles de fato querem saber alguma coisa pessoal sua, você sabe que o grupo atingiu aquele nível de abertura necessário pra atividades comunicativas darem certo, ou o mesmo nível do segundo dia de aula no Brasil. 

Um outro aspecto importante é assegurar às pessoas que a privacidade delas está protegida com você. Eu gosto de fazer uma lista de contato nas minhas turmas para que, caso aconteça alguma emergência, a gente possa entrar em contato um com os outros facilmente. Antes de oferecem seus dados, os alunos sempre gostam de ouvir que eu não vou passar a lista pra mais ninguém e que ao invés de jogar aquele papel no lixo, que eu darei fim a ele no picotador de papel assim que o curso acabar. É um monte de detalhe, pra quem vem de uma cultura onde basicamente ninguém tá nem aí com essa coisa, mas vale a pena passar por isso pra que no final das contas o ambiente de sala de aula seja relaxado e para evitar que os alunos achem que você é um interrogador e que eles estão de volta aos tempos da Alemanha dividida.

Isso é um caso sério mesmo. Por questões históricas esse povo tem trauma de ser seguido, observado, interrogado. A Alemanha já viveu vários momentos em que privacidade não era um direito e sim apenas um conceito distante e por isso hoje, que de fato é possível, ter uma certa privacidade, eles a protegem com unhas e dentes nas menores coisas. Por exemplo, ninguém te pergunta qual a sua religião, pra quem você votou, se você é casado ou solteiro, se tem filho. 
Pouca gente se exaspera quando descobre que você não tem celular ou quando te liga e ele está desligado. Se você liga pro trabalho e diz que está doente e não pode ir trabalhar, ninguém fica te perguntando o que você tem, você conta se quiser. Inclusive determinadas perguntas no ambiente de trabalho podem até gerar processos de invasão de privacidade. A precaução com a privacidade no terreno virtual também beira a paranóia e sempre me intrigou, já que a Alemanha é campeã em produção e exportação de tecnologia que ela mesma é cautelosa ao usar. 

Para resumir a conversa, tem um velho ditado que diz: "Quando em Roma faça como os romanos". Já que estou na Alemanha, aprendi a ser mais cautelosa e cuidar mais da minha privacidade. Acho que encontrei o caminho do meio entre a super exposição brasileira e a super paranóia alemã. E o ideal pra grande parte das coisas desse mundo não é mesmo poder apreciar de tudo com moderação?

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