Montag, 5. September 2011

Para Lubi, meu irmão

Lembro que quando eu era criança tudo o que mais queria nessa vida era ter um irmãozinho. Aliás, um irmãozinho, não. O que eu queria era um irmãozão. Nas minhas fantasias de criança, o irmão que me fazia falta nunca era um bebê chorão menor do que eu e sim um menino que seria sempre um pouquinho mais que eu: mais velho, mais sábio, mais popular, mais conhecido. Muito estranho isso, mas quando criança eu trocaria, sem hesitar, qualquer situação em que eu fosse o centro das atenções pela chance de poder dizer: “O quê? Você conhece fulaninho? Ele é meu irmão.” Eu desejava aquilo com tamanha intensidade que minha cabecinha avoada de criança nem se tocava do óbvio que era a impossibilidade daquele sonho. Eu já estava aqui no mundo, ter um irmão mais velho só poderia virar realidade em outra vida.

O tempo foi passando e com ele aquela fantasia foi dando lugar a outras. Agora queria era passar no vestibular, conseguir juntar dinheiro pra fazer um intercâmbio, comprar um carro, arrumar um namorado legal, comprar uma casa, conseguir aquele emprego bala, ganhar na loto, ter uma ilha. À medida que a gente vai crescendo, nossos sonhos vão ficando mais materiais, mais práticos e comigo não foi diferente. Uns sonhos foram se realizando rápido, outros de forma mais trabalhosa e outros foram mudando ou terminaram sendo completamente substituidos. No geral, me considero uma pessoa de sorte por quase sempre conseguir alcançar minhas metas, meus objetivos.


Mas realizar sonhos leva tempo e dá trabalho. Por isso eu estudei muito, troquei de universidade, trabalhei aqui e acolá, trabalhei por merreca, fiz amigos, perdi amigos, fiz cursos, viajei, galinhei bastante - porque ninguém é de ferro - me apaixonei, chorei, dei muita risada, caí, levantei, quis mandar tudo pra puta que pariu, virei zen, fiz yoga, perdi a paciência, a recuperei e, durante todo esse tempo (mais ou menos a partir do momento em que eu comecei a deixar de lado o desejo de ter um irmão mais velho para dar preferência a outras fantasias), uma pessoa esteve presente acompanhando tudo isso. 
Olhando pra trás, lembro exatamente do nosso primeiro contato: eu estava anotando alguma coisa num caderno, apoiado na minha mão, de pé, em frente à sala de aula, antes de o professor chegar. Ele estava encostado na parede, bem ao lado do papel que eu queria ler. Tentei ignorar sua presença, mas ele não é o tipo de pessoa que alguém consiga ou queira ignorar. Era um adolescente lindo, alto, com cabelos longos e brilhantes de dar inveja a qualquer menina, seus olhos eram super meigos, era muito, mas muito charmoso mesmo e como era cheiroso! Simpático como ele só, começou a brincar comigo, tentando me atrapalhar com minhas notas. Dei risada e senti meu coração se aquecer. Mal sabia eu que meu sonho de menina estava se realizando. Naquele exato instante, estava nascendo para mim meu irmão mais velho.Desde então, Lubi, meu irmão esteve presente em minha vida em todos os momentos. Nas fases ruins ele me ouve, aconselha, oferece outra perspectiva da situação. Quando eu passo dos limites, meu irmão me dá umas chamadas pra real também. Coisas de irmão mais velho. 

Assim como todo bom irmãozão, ele sempre foi um grande modelo pra mim e é em grande parte responsável pela minha formação como ser humano. Sem ele, muitos de meus melhores momentos de vida nem teriam acontecido. Entre as tantas coisas que ele fez por mim, está o despertar do meu interesse por questões sociais e políticas, a ampliação do meu universo musical e ter me apresentado ao meu marido, o primeiro grande amor de minha vida. Faltaria espaço aqui pra contar quantas vezes ele aguentou minhas bebedeiras e me levou sem nenhum arranhão sequer de volta pra casa.

Meu irmão e eu já tivemos momentos super próximos de quase sermos um só, ao ponto de algumas pessoas nos chamarem Criselubi, e outros, mais distantes, de meses sem saber um do outro. Hoje em dia eu sei que aquela melancolia que insistia em me acompanhar apesar de eu estar bem, vinha do fato de estar distante de meu irmão. Porque naqueles momentos de distância não se passava um dia sem que eu pensasse nele. Lembrava dele em festas, quando via algo que eu sabia que ele ia gostar, queria fazer comentários que eu sabia que só ele iria entender. Como é comum entre irmãos, já brigamos também. Mas a gente sempre aprende com nossos conflitos e ao final de cada briga, nosso elo se torna cada vez mais forte. Mas não gosto de brigar com meu irmão. Quando isso acontece, a dor é tão grande que parece até que briquei comigo mesma. 


O meu maior pesadelo de mulher adulta é o medo de acordar um dia e me achar sozinha no mundo. Sem filhos, sem marido e sem ninguém com quem dar os últimos passos de minha vida. Pesadelo bizarro, eu sei, mas que recentemente parou de me atordoar, sabe por quê? Esta semana eu estava caindo e meu irmãozão mais uma vez me segurou. Dono de uma sabedoria incrível, mandou eu chorar direito e me disse todas as coisas que eu precisava ouvir. Cada palavra era uma carícia em minha alma. No final, ele completou: haja o que houver, seja quando e onde for, aconteça o que acontecer, pode me chamar que eu vou na mesma hora te socorrer, como você precisar. Senti novamente meu coração se aquecer. Olhei fundo nos seus olhos, que ainda carregam toda a doçura da adolescência, mas com um fator a mais que é a segurança e a maturidade do homem que ele se tornou. 
Acreditei completamente nas palavras dele. Tenho certeza de que nossa amizade e  nosso elo de irmãos são eternos e de que eu nunca vou precisar passar por nada sozinha, se não quiser. Fui relembrada do porque a vida vale a pena e passei a noite agradecendo a papai do céu por me ter concedido o desejo impossível de criança de ter um irmão mais velho.

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