Sonntag, 8. Juli 2012

Voltando às origens




Recentemente pude reviver duas experiências fantásticas: a de voltar a ensinar aqui no Brasil, (onde minha carreira profissional começou) e a de voltar a ensinar crianças. Crianças são afetivas e honestas em qualquer lugar do mundo. Se elas gostam de você e de sua aula, elas vão deixar bem claro sem vergonha, sem receio e sem meias palavras. Quem ensina criança sabe disso. 

Mas crianças na Alemanha são um pouco mais travadinhas pra demonstrar carinho. Quando não gostam de sua aula, elas abrem a boca rapidinho e deixam sair um sonoro "das ist langweilig!Es macht kein Spaaaaaß!!!!" (isso é chato! Não é divertido!) ao passo que quando gostam, as palavras não fluem assim tão rápido. 
Primeiro elas vão se aproximando de sua mesa, bem de fininho no final da aula, puxando um papinho meio furado e sem sentido, que você logo, logo saca que é só um pretexto pra poder falar com você mais um pouquinho. Aí, antes de sair, elas lançam um bem rápido e tímido elogio do tipo "gostei de sua aula" ou "a gente pode fazer uma aula igualzinha a essa semana que vem? hoje foi tão divertido!". Se sua popularidade estiver em alta, você ganha um cartãozinho ou outro no final do semestre e um aperto de mão junto com um "Boas Férias". 
Quando dei minha última aula antes de vir embora, um grupinho de alunas se aproximou e me perguntou na maior timidez "Senhora Santos, a gente pode te dar um abraço?" Me emocionei e apesar da regra rígida que proíbe todo e qualquer contato físico entre professor e aluno, dei um abraço em cada uma daquelas meninas (de 11 anos) e depois demos um divertido e caloroso abraço em grupo. Ainda bem que ninguém quis me denunciar e me por na cadeia por causa disso.
Aqui no Brasil nenhuma criança te pergunta se pode te abraçar. Ao substituir uma colega que ensinava crianças de 5, 6 anos, fui pega de surpresa com abraços calorosos da criançada várias vezes. Um garoto me pediu pra amarrar seu quimono e uma menina me pediu pra pentear seu cabelo e me contou que seu irmãozinho mais novo não gosta de pentear o dele. E olha que elas estavam me vendo pela primeira vez. As crianças aqui esbanjam autenticidade e não têm muita cerimônia. Se uma criança brasileira quiser te abraçar, ela abraça mesmo e acabou. Pra ela, pouco importa se você não está afim, se está virada pro quadro, carregando livros ou acabou de sofrer uma cirurgia (já passei por isso e na hora não achei nada fofinho). 

Nem me lembrava mais dessas demonstrações de afeto de aluninhos e me emocionei. Essa naturalidade faz com que ensinar crianças aqui no Brasil seja mais fácil e mais divertido do que lá. Eu sei quais são as regras do jogo, não preciso ficar preocupada em não chegar muito perto pra não entrar em contato físico sem querer e não preciso me preocupar em ensinar ninguém a demonstrar que me respeita me chamando pelo meu sobrenome. 

Uma vez uma aluninha elegiou meu perfume e perguntou qual era. Estendi meu braço pra que ela pudesse sentir o perfume no meu pulso. Uma professora passou na hora e me lançou o maior olhar de condenação. Depois, na sala dos professores, me disse pra eu ter cuidado com essas coisas pra não me dar mal. Fiquei assustada e com  medo de ensinar crianças por receio de que mesmo meus gestos inocentes pudessem ser mal interpretados.

Sem ter de me preocupar com tanta coisa em paralelo, acabo sendo mais autêntica em sala de aula quando estou em Salvador. Na Alemanha a Frau Santos, como tenho de ser chamada na escola, é uma espécie de personagem, meio fria, um pouquinho antipática e durona, que me chateia de vez em quando. Mas infelizmente não dá pra entrar em sala em uma escola em Bremen sem ela. O professor na Alemanha, só consegue desempenhar seu papel direito se já for entrando na sala ditando as regras. E elas são muitas e muito rígidas. 

Quando entro em sala de aula aqui, sou antes de qualquer coisa eu mesma. Existem regras, mas elas vão surgindo de forma mais natural, derivadas do puro bom senso. Acho mais fácil e mais gostoso ser professora aqui. Até mesmo porque quando está muito chato ensinar, porque o dinheiro é pouco, o trabalho é muito ou nosso empregador não nos reconhece, tem sempre um aluninho que de alguma forma te dá aquele abraço que você merece no final da aula. 

P.S. Mas como tudo que fazem, quando os alemãezinhos resolvem demonstrar carinho, fazem bem feito, viu... abaixo meu presentinho de despedida de uma turminha. Tudo feito por eles. 
Arranjo de flores montado pelo grupo, com boa parte das flores colhidas nos próprios jardins. que meigo, né? Cartolina cortada e foto colada para fazer o cartão

Se liguem na gracinha que é o inglês deles

Dêem uma olhada em como eles se chamam. Em alguns casos dá pra advinhar suas origens através dos nomes. Adorava ensinar nessas turmas bem diversas culturalmente. Isso sim, faz falta quando ensino aqui.:-(


 

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