Samstag, 5. März 2016

Foi mal aí - lidando com o "Lidando com o racismo"




Em 2013 um texto meu ganhou pouco de atenção nas redes sociais depois de ter sido publicado no Blogueiras Negras e pra minha surpresa, ter sido reproduzido pelo Geledés, Pragmatismo Político e outros sites. Desde então, vira e mexe ele reaparece por aí mas, depois de uma série de críticas que andei recebendo em relação a ele, achei que já passou da hora de eu tocar de novo no assunto e fazer alguns esclarecimentos. Então vamos lá:

A primeira coisa que percebo ao reler esse texto é o quanto minha visão das coisas era ingênua. Eu sei que eu dei bastante sorte ao chegar aqui. Ao casar, a gente escolhe o(a) parceiro(a), mas recebe de quebra uma verdadeira caixinha de surpresas recheada com os(as) amigos(as) e parentes do (da) digníssimo (a). A minha caixinha de surpresas foi das melhores.Sei que foi sorte e sou agradecida por isso.

O segundo momento que dei sorte, foi com meu primeiro emprego aqui. Trabalhei em um lugar onde as pessoas tinham tido muitas experiências com outras culturas e onde ter um histórico pessoal de imigração era tido como uma coisa positiva. Ou seja, meu primeiro contato com a cultura alemã me surpreendeu de forma muito positiva e por estar vivendo cercada de pessoas inteligentes, reflexivas e de realidades culturalmente distintas, por muito tempo eu vivi numa Alemanha de conto de fadas que não existe para a maioria.

Hoje eu sei que a cultura deste país é muito diversa, mas que também é muito racista e arrogante. Eu sei também que as histórias de racismo velado ou bem na cara, variam de acordo com uma série de fatores, inclusive com a cidade ou região do país em que se vive (a mídia relata muito mais casos de racismo na parte leste do país por exemplo, do que aqui no oeste ou no norte), mas que pode-se sofrer discriminição em qualquer lugar aqui. Eu precisaria de alguns textos pra conseguir listar as diversas formas de preconceito que um ser humano pode enfrentar neste país. Esta lista de absurdos vai desde o irritante racismo cordial, que muitas vezes até as pessoas que o sofrem não conseguem enxergar, como quando um cara que estava conversando normalmente com um mulher, de repente fica todo saidinho quando descobre que ela é brasileira, até a maior brutalidade que acontece quando skinnheads ateam fogo a abrigos de refugiados sírios. Sim, não sou cega. Posso ver isso claramente mesmo de dentro da minha bolha.  

Mas o que me levou a escrever aquele texto, ingênuo pra época, desajeitado em algumas frases e meio inadequado pros dias de hoje, foi o fato de me irritar com o incômodo seletivo das pessoas na minha própria cultura. Me agonia muito quando volto ao Brasil e pessoas se mostram tão preocupadas e curiosas com o racismo no exterior, mas que não se incomodam nem um pouco com ele dentro do nosso país. Nunca tive direito a uma bolha protetora crescendo em Salvador. Acho que por isso me encantei com a proteção que encontrei no meu primeiro momento aqui. 

À medida que o tempo foi passando comecei a perceber que muitas situações que eu a princípio julgava serem exceções, eram muito mais comuns do que eu imaginava. Hoje em dia penso que Brasil e Alemanha tem muita coisa em comum no que diz respeito a racismo. Os dois países são extremamente racistas, ambos insistem em negar que são e adoram criticar o dos outros enquanto vivem negando o próprio. 

Sempre soube que negar racismo é racismo também. Quando escrevi o texto, pudia ver isso muito bem no Brasil, mas como ainda estava em fase de lua-de-mel com meu novo país, na época acabei supervalorizando minhas experiências positivas aqui e via tudo de forma meio tendenciosa. Tudo era lindo e maravilhoso.

Mesmo com todo encantamento inicial, isso também não significa que eu passei 15 anos totalmente ignorante ao problema do racismo e xenofobia desta cultura. Quem acompanha este blog há um tempinho, já deve ter lido alguns textos nos quais eu relato experiências que deixam bem claro que sempre soube que este país está longe de ser a terra mágica da tolerância e aceitação entres os seres humanos. 

A minha motivação ao escrever o “Lidando com o racismo” foi mais um desabafo baseado na minha experiência pessoal com esses dois mundos num momento de saco cheio de Brasil e encantamento com Alemanha, mas em momento algum prentendi generalizar minha percepção como sendo uma realidade de todas as pessoas negras vivendo aqui, até mesmo porque eu sei que o racismo não atinge todas as suas vítimas da mesma forma. 

São muitos os fatores que determinam como um(a) preto(a) pode vir a sofrer discriminação. Entre eles estão o tom da pele, a origem social, seu poder econômico, seu nivel de educação formal, o lugar onde nasceu, o local onde se vive, seu tipo de cabelo e traços a forma como se veste, sua orientação sexual, seu gênero... Não dá mesmo pra uma preta só falar por todas. Nunca quis e nem quero fazer isso, por isso deixo aqui meus sinceros pedidos de desculpas a todas as pessoas que se sentiram silenciadas e ofendidas pelo meu texto. Realmente, não foi minha intenção falar por ninguém, só por mim mesma. Ter recebido as críticas me fez repensar minha forma de escrever e falar e isso é crescimento, então agradeço a todas (os) que ajudaram. Queria muito, mas sei que não posso prometer que nunca mais vou pisar na bola, portanto aqui fica apenas minha promessa de ficar mais atenta a como escrevo.

Ahhhhh! E muito importante: um grande abraço e um muito obrigada a todos(as) que conseguiram criticar o texto sem xingar nem ofender ninguém. Nos tempos de hoje isso é uma arte e por isso saibam que a crítica de vocês foi super bem vinda e eu as guardei com carinho no fundo do coração. E que venham outras desse tipo pra me fazer crescer:-)

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