terça-feira, 8 de setembro de 2020

Continuidade

Faz um ano que eu e Flora Régis Campe, uma amiga querida, demos a vida a um projeto antigo e muito desejado. Há 7 anos nós duas tínhamos participado de um curso que mudou nossas vidas através da reflexão.  O curso era uma especialização que analisava a fenômeno da migração sob uma ótica psicológica e social. De repente eu percebia que muitos dos conflitos, tristezas e frustrações que eu sentia eram bem mais comuns do que eu imaginava. Ao mesmo tempo, eu recebia ferrametas para lidar com aqueles sentimentos. Foi um curso que realmente abriu meus olhos para muita coisa e, depois que acabou, me deixou com o sentimento de que o que tinha aprendido ali precisava ser compartilhado com o mundo.

Mal sabia eu que minha conterrânea, colega de curso e amiga, estava em seu cantinho, pensando a mesma coisa que eu: como acessibilizar essa mensagem para o maior número de pessoas possíveis? Foi assim que um dia, meio que sem querer, começamos a nutrir a ideia de lançar um podcast sobre o assunto. E isso foi exatamente o que a gente fez. Criamos um podcast para falar sobre migração, educação, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.

Imagem: Beatrice Castelani

Já falamos sobre tanta coisa, mas seguimos sentindo que ainda há muito o que se falar. Conhecemos pessoas maravilhosas, recebemos lindas mensagens de incentivo ao trabalho que estamos desenvolvendo e estamos cada vez mais empolgadas com o que temos produzido. Me dá muita felicidade poder contribuir dessa forma para despertar a reflexões e poder ajudar a encurtar os espaços entre pessoas. 

Imagem: Clarisse Och

A gente faz o Continuidade com muito amor para nós mesmas e para vocês também. Vocês podem nos escutar no Spotify, no Deezer, no Google Podcasts ou no nosso site. Além disso vocês podem nos seguir também no Instagram, Facebook ou Twitter. Você também pode nos escrever um um email (continuidadepodcast@gmail.com). Nós vamos adorar saber sua opinião e conhecer sua história.

 

domingo, 8 de março de 2020

Impostora?


Todo mundo tem uma amiga maravilhosa, linda e inteligente. Essa amiga, é uma pessoa que teve uma carreira profissional espetacular, que é sensível e cuidadosa com as outras pessoas, que faz o seu dia render de forma espantosa se envolvendo em um milhão de atividades. Ela é, no geral,  aquela que faz todo mundo se perguntar como é que ela consegue fazer tanta coisa, saber tanta coisa e estar sempre lá quando as outras pessoas precisam. Se você está pensando que não tem uma amiga assim, então sei lá, talvéz você é que seja essa mulher no seu grupo. O que eu sei é que em todo grupo sempre tem uma ou mais mulheres assim.


O detalhe perturbador em relação a essa mulher, é que ela sempre escuta que ela é maravilhosa, mas alguma coisa dentro dela nunca permite que ela acredite muito nisso. Ela pode até ter uma noção de que conquistou muita coisa ao olhar para seu currículo, para os seus filhos crescendo, para a sua casa arrumada e ao olhar ao seu redor e constatar suas conquistas mais evidentes. Mas essa certeza, para ela, nunca é realmente incontestável. Na maior parte do tempo ela duvida mesmo de si e questiona constantemente a sua forma de fazer as coisas. 

Ela sempre acha que ainda deveria fazer mais um curso antes de tentar aquela vaga de emprego, estar mais presente na vida dos filhos, preparar melhor suas aulas, ter batido aquele bolo um pouco mais, economizado mais, malhado mais, falado mais baixo, ter resolvido aquela situação no trabalho de forma diferente. Ela compara suas conquistas com as de outras pessoas em lugares e situações muito diferentes do dela e se sente indequada, desajeitada e sempre um passo atrás.

Talvéz essa mulher sofra do que se se convencionou chamar de “Síndrome da Impostora”. Ela olha pra si mesma e para todas a suas conquistas e não consegue dar o valor real que elas tem, sempre sentindo que o que faz ainda não é  bastante. Ela precisar produzir mais, ser mais, prover mais e melhor sempre. 

Tem aquela vaga de emprego que os amigos e amigas dizem que seria perfeita pra ela? Ela é a primeira a duvidar de sua capacidade de encarar esse desafio. Ela é elogiada por algo espetacular que criou? “Que nada” diz ela, “Nem foi tão complicado assim.”


Essas mulheres que duvidam de seus talentos e habilidades e vivem questionando seus feitos e diminuindo suas conquistas, sou eu, é você, é a sua mãe, sua vizinha, sua chefe. Essa mulher somos todas nós. 
Como é que a gente chegou aqui nesse ponto de não acreditarmos em nosso poder? A resposta não é simples e vem sendo construída através de séculos. Nós mulheres somos treinadas para superar tudo, vencer todos os desafios que a vida nos apresenta e ainda chegar ao final achando que não foi nada. Precisamos dar um basta nisso!

Nós mulheres precisamos urgentemente aprender a olhar para as nossas próprias histórias e para as histórias de nossas pares com a admiração e o respeito que essas trajetórias merecem. A gente gera, cria, produz, entende, conserta, cai, levanta, segue, transforma e faz muito mais o tempo todo. Precisamos aprender a honrar isso e nos autorizar a dizer: Sim eu posso, eu sei, eu faço, eu sou a melhor nisso sim, e muito obrigada. Sem mas, sem explicações, sem desculpas e sem olhar pra baixo. 

Impostoras aqui só são mesmo as lógicas sociais que nos oprimem. Que a gente possa celebrar as nossas histórias, nossas conquistas e o nosso dia.


Feliz 8 de Março para todas nós!


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Espiritualidade no mundo real


photo by @artsy-solomon from nappy.com


De vez em quando tenho umas fases mô bara de vida. Não sei exatamente de onde vem o termo, mas acredito que foi cunhado por meu amigo René. Mô bara é uma pessoa que anda descalça, abraça árvores, fala que gostou ou não gostou de alguém por causa da energia e agradece falando “gratidão”.


Vira e mexe eu tenho umas fases dessas. Na verdade, acho que minha vida seria assim permanentemente se não fosse por um pequeno detalhe: aparentemente, ser espiritualizada e ter consciência política/social são duas coisas excludentes.


Há pouco tempo, notei que tudo quanto é de autor e autora de autoajuda que gosto defende a teoria de que devemos evitar negatividade, principalmente nas primeiras horas do dia. Para isso, sugerem que se evite ler notícias porque elas são sempre negativas e essa negatividade toda atrapalha nossa própria energia. 


Eu até entendo isso, mas e aí? É pra gente viver completamente alienado e alienada em relação aos eventos, sejam  eles mundiais ou locais? Eu não consigo conceber uma espiritualidade que ignora o coletivo.


Concordo que o mundo anda muito negativo. As notícias são de fazer qualquer pessoa não querer nunca mais sair da cama. No entanto, fico me perguntando se só existem mesmo duas opções: cuidar da espiritualidade e ser alienada versus ser politizada e completamente desconectada da espiritualidade. 


Pessoalmente, não consigo entender uma espiritualidade baseada no desinteresse pelo mundo do qual fazemos parte. Eu acredito que sou parte do todo e que esse todo está em mim. Sendo assim, ignorar o mundo seria ignorar esse todo do qual eu faço parte e isso, ao meu ver, não está em concordância com uma espiritualidade plena. 


Eu, claramente, necessito desses dois elementos na minha vida. Só ainda não sei ao certo como podem coexistir em harmonia dentro de mim.  Por isso é que meu mô barismo vem em fases. Por vezes estou mais centrada, mais conectada comigo mesma e outras vezes estou mais antenada com os acontecimentos ao meu redor, me engajo mais, consigo participar de forma mais ativa das questões políticas e sociais cotidianas. 


Essa dicotomia me inquieta.Queria conseguir viver uma espiritualidade plena, que para mim significa me manter bem informada sem deixar que a negatividade das notícias interfiram em meu humor, na minha energia e na minha fé na humanidade. Alguém aí sabe como se faz isso?