Sonntag, 20. August 2017

Seu olhar invasivo


Lá ia eu andando pelo centro da cidade de Bremen, indo resolver uma coisinha aqui, outra ali, quando, de repente, escuto alguém falando alguma coisa em português. Isso é um fenômeno quase mágico quando se mora no exterior. Você ouve sua língua, e é como se de repente tudo virasse pano de fundo. Em momentos assim, eu imagino como se a cena parasse e o que eu tinha ouvido em meu idioma se amplificasse. Eu adoro isso. Naquele dia, no entanto, eu teria aberto mão de meu superpoder de brasileira de reconhecer meu próprio idioma misturado onde quer que ele esteja para ter sido poupada de ouvir o que eu ouvi. 

Era um conhecido das antigas. Um cara bacana de quem eu gosto nem sei por que, afinal, temos pouca coisa em comum e pouquíssimo contato. Sempre encontrava com ele nas farras da vida, falávamos merdas juntos, dávamos risadas. Esse era nosso nível de convivência.

E, onde quer que ele me veja, sempre grita alguma piadinha, mesmo que esteja do outro lado da rua. Eu sempre respondo com uma risada e outra piada pronta e sigo meu caminho. Já fazia um tempinho que não encontrava com ele por aí, quando, de repente, escuto sua voz no meu idioma, que se destaca e faz o alemão virar barulho de fundo:

- “Não mudou nada! Continua linda! ”

Me viro para tentar identificar de onde veio a voz e, toda alegre, cumprimentar meu conhecido que não via há uns bons 8 anos, e ele repete:

- “Continua linda como antes. ” E acrescenta:

- “Só está um pouco gorda”, e insiste:

- “Linda demais, como sempre. Só está gorda”. 

Como sempre, em situações esdrúxulas, não tive reação e fiquei com cara de nada. O que não deu para evitar foi a raiva que senti depois. Minha alegria em revê-lo se transformou imediatamente em mal-estar. Eu tenho um talento especial para atrair pessoas esquisitas e nem sempre acho isso uma coisa ruim. Pessoas esquisitas são especiais e, muitas vezes, a gente precisa de uma boa dose de excentricidade para enfrentar os imprevistos da vida. Aquele comentário dele, no entanto, me fez sentir invadida e exposta, como se aquele quase estranho tivesse rasgado minha roupa no meio da rua. 

Vocês já pararam para notar como nós, mulheres, em um momento ou outro, sempre acabamos sendo alvo de observações não solicitadas sobre nossos corpos por aí? Não me lembro de ter perguntado a meu conhecido sem noção se eu estava feia ou bonita, gorda ou magra. É simplesmente muito ofensivo que um comentário como esse seja a frase que abre uma conversa com uma pessoa com a qual você não tem intimidade. Dizer isso antes mesmo de um “oi / como vai / há quanto tempo” é grosseiro e invasivo.

As pessoas não nos poupam de seus comentários sobre nosso peso, nossa aparência e os cuidados que temos ou deixamos de ter com ela. Se vacilar, esses comentários se expandem até nossas vidas sexuais e amorosas. “Tá com a perna toda cabeluda, deve estar solteira”. “Se depilou e comprou calcinha nova. Hoje vai dar pra alguém”.

Me intriga e irrita muito essa obsessão que o mundo tem com o corpo feminino, suas vidas e essa mania de achar que nós, mulheres, estamos sempre receptivas a comentários sobre a forma como nos apresentamos para o mundo. Homens não são alvos tão frequentes de observações não solicitadas sobre seus corpos como nós. Numa sociedade tão machista e misógina como a nossa, existe uma expectativa constante de que mulheres sejam apenas seus corpos e que eles não questionem nunca o que esse mundo doente quer que eles signifiquem.

Por isso, mulheres, não ousem ser gordas, a menos que vocês sejam mães de alguém e já tenham passado dos 60. Se saírem na rua exibindo alguns fios de cabelo branco, é bom ter uma explicação na ponta da língua, tipo “essa semana foi o maior corre-corre”. Se você sair sem maquiagem, o mundo vai achar que você se entregou, que está depressiva e não se cuida mais. Mas cuidado: homens não gostam de maquiagem demais. Não vista saia curta demais, senão vão achar que você está querendo se aparecer, ou até pedindo para ser assediada. Mas não vai sair com essa roupa cobrindo demais o corpo porque você não é beata e corre o risco de não arrumar quem te queira.

Affffff, isso cansa! Fico me perguntado se existe alguma forma de acertar enquanto mulher numa sociedade como essa. Me parece sempre que só temos duas alternativas: viver presas em caixinhas demarcadas para nós, eternamente escravas subservientes para sermos aceitas, ou chutar o pau (figurativamente, mas, muitas vezes, literalmente mesmo), recusar rótulos e para sempre sermos tachadas de chatas, difíceis e “feminazis”.

Eu tenho procurado uma alternativa. Comecemos devagarzinho, fazendo pequenas mudanças, que, no final, acabam fazendo uma diferença enorme. Podemos, por exemplo, fazer tentativas sinceras de guardar nossas opiniões sobre a aparência e as vidas alheias para nós mesm@s, principalmente quando se tratar das vidas de outras mulheres. 

Sei que falar d@s outr@s, muitas vezes, é uma espécie de ritual catártico e eu não estou propondo que ninguém vire sant@ de uma hora para outra, mas estou sugerindo que, aos poucos, a gente vá mudando o foco de nossas observações, que comecemos a nos questionar, de forma consciente, se comentar o peso de fulana, a roupa de ciclana e a aparência de beltrana é realmente importante para nós e para a pessoa que vai ouvir. Será que, comentando isso, iremos, de alguma forma, provocar alguma mudança positiva onde quer que seja?

Se a resposta for sim, e se essa pessoa for próxima de você, vá fundo, comente, ajude, elogie, sugira formas de melhorar. Se não, na moral, faça um favor à humanidade e guarde seu comentário para você.

Revisado por Marina Hatty:-)

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